quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Dete Morte - um conto

 



Estava em todas as manchetes: “Empresário condenado morre subitamente aos 45 anos”. Ao lado a foto dele, sorridente, atlético, em festas, com a família. Que tudo fique bem, pensei. Eu trabalho na casa dele há pouco, porém intenso, tempo. Sou humana, não desejo mal a quase ninguém. Inclusive, por assim dizer, meu negócio é o bem.

Parece que a família vai mudar para o exterior. Mas, mesmo que queiram me manter, meu real trabalho aqui está encerrado.

Mentalmente já fico elaborando os trâmites da próxima empreitada. O planejamento prévio e organizado são o segredo do meu sucesso. Sucesso que só eu celebro e conheço.

Lembro de quando tive a ideia. Estava assistindo uma série onde um menino possuía um caderno onde anotava o nome de quem ele queria que falecesse, e ainda poderia escolher o que ocasionaria a morte. Achei o máximo, fiquei obcecada. Juro, nunca tive ódio nem contendas pessoais, mas me sentia oprimida pelas notícias, pelas injustiças...precisava fazer algo. Sonhava em ser mágica e eliminar malfeitores, em ter aquele caderno de eliminação da série...a cada dia minha frustração e insônia só aumentavam.

Não pense que não sou lúcida, fui ao médico, não falei da série, falei da minha angústia ante essa quadra da história em que vivíamos. Ele passou uns remédios e chamou a próxima paciente. Muita insensibilidade. Eu tinha que agir sozinha, estava por mim, por assim dizer.

Aí, um dia, do nada, tive a ideia.

Trabalhava em uma família rica, onde um dos membros estava em liberdade após vários escândalos de grande alcance, que geraram milhares de mortes. Falando assim, parece que sou uma assistente financeira, uma contadora, uma secretária. Sou doméstica. Faço parte do ambiente, assim como o sofá, a mesa...só sou menos valorizada e infinitamente menos percebida: não há ensaio de fotos com a minha presença. Melhor pra mim.

Mas enfim, não sou fixa, sou diarista. Faço tudo, não tenho horário para sair, sou altamente competente. Sou mesmo, não quero me gabar. Leio e estudo muito, mas só porque gosto mesmo, nunca havia me ocorrido utilizar conhecimentos científicos no trabalho.

Nunca havia trabalhado na casa de famosos. Mas esse meu primeiro alvo era conhecido pela ousadia em medidas impopulares e por debochar da população. Foi tão simples e rápido, ele tinha um determinado problema de saúde, não letal, a menos que tivesse contato com um determinado composto, que por acaso eu tinha a matéria-prima plantada em meu quintal. Tenho ainda aqui em casa, se você precisar. Peraí, a expressão correta é matéria-prima ou commodities? Ah, não, nesse caso era matéria-prima mesmo. Tento ser culta.

Não fui lá na panela e despejei. Em casa colocava um pouquinho no bolso do meu uniforme, colocava o dedo discretamente, passava no prato vazio dele ao servir à mesa, passei no desodorante, no perfume, bem discretamente, na parte externa. Se houvessem câmeras, eu apareceria apenas limpando, servindo. É o que eu faço. Minha vida é um livro aberto, com algumas palavras escritas com tinta invisível, que se você ler, não verá nada demais.

Em pouco tempo ele adoeceu e morreu. Tão saudável! Nada de estranho foi detectado, não houve o que investigar, nem pensaram nisso. E poderiam fazer uma varredura na casa, daquelas das séries da TV, nada encontrariam.

Nunca aconteceu, mas podem me investigar, tenho a consciência tranquila. Não pesquiso na Internet, não compro veneno como muitos amadores por aí, não deixo nenhuma espécie de rastro. E não sou esquisita, mal-humorada. Não volto à cena do crime...nem cheguei a sair de lá! Vou à igreja. Me compadeço, não tenho ódio. Não debocho, nem pelas costas. Sou apenas organizada, de ímpetos firmes, porém calmos.

Encaro minhas ações como meu trabalho. Tipo faxina, sabe? Mas nesse caso, ninguém me contrata, ninguém me agradece, ninguém sabe. Nem saberão. Não sinto falta disso. Também sou beneficiada enquanto cidadã.

Cresci acostumada com a invisibilidade e o menosprezo. Isso não me abala. Quando você trabalha pela sobrevivência, só almeja salário e benefícios, não se apega tanto ao fato de não ter reconhecimento. Bom, pelo menos para mim, pagando certo e no dia combinado, já me contento.

Olha, não me considero hipócrita. Eu tenho empatia pelas famílias que perdem seus entes queridos (nem tão queridos às vezes, tenho que dizer). Muitos agem na vida privada com muita da canalhice que os destacaram. Eu sei, eu vejo. Na maioria dos casos as pessoas nem ligam, estão mais preocupadas com a imprensa, as roupas, o inventário. Meus sentimentos.

O mais próximo que cheguei do... resultado, do flagrante das minhas próprias atitudes, foi quando o alvo passou mal dentro da casa dele enquanto estava com amante. A esposa estava viajando. Boazinha ela, me trouxe até presentes. A meu favor, informo que quase não agi nesse caso, ele que havia ingerido outras substâncias que adiantaram bastante o processo. Foi muito triste. Bom, mais ou menos. Abafaram tudo, e não havia o que investigar, cardíaco, drogas, amante, tudo às claras. Coisas da vida. Tenho que parar de sentimentalismos, ele teve o que mereceu. O que buscou.

Me assustei um pouquinho, só porque achei que ele havia gritado meu nome, mas ele falou outra coisa. Ele não sabia meu nome, claro. Tenho consciência.

Nem eu lembro direito meu nome, mas costumam me chamar de Dete. É um apelido, a empregada fixa é a Guete e a diarista, Dete. Costume de desumanizar, tornar nosso vínculo mais impessoal. Por mim, tudo bem. Só facilita. Mas até gosto do apelido, parece com o nome da série que me inspirou. Só não anoto os nomes dos alvos porque a anotação de hoje pode gerar a prisão de amanhã. De boba não tenho nada.

Já aviso, não adianta querer me pesquisar, não é meu real nome e não tenho redes sociais tão ativas assim. Até possuo, mas só mantenho para o caso de ser investigada e não soar suspeita. Nunca chegou nem perto disso, mas sou precavida. O diabo mora nos detalhes. E já disse que não sou esquisita, sou normal. O normal é querer o bem, não é?

Às vezes até considero a ideia de que as pessoas sabem da minha...ajuda. Eu me achando a gênia secreta do crime, e sendo apenas um catalisador. Será? Acho que não. Mas parece. Às vezes.

Já agi em tantos casos. Muitos mesmo.  Sou muito requisitada, rápida. Me refiro à faxina. Não sou assassina, sou faxineira. Ajudante geral. Bem geral mesmo, mas só nós sabemos. Limpo o lixo do mundo.

Devido à minha organização, ampliei bastante minha...atuação de segundo plano. E cada vez de um jeito. Bem tranquilamente, sozinha, melhorei muito a vida da população, saiba disso. São muitas pessoas más, mas observação e um bom planejamento geram tão bons resultados! Será que eu deveria ser “coach”? Vou pensar seriamente nisso.

Se eu não atiro, não esfaqueio, não atropelo, não compro arsênico, é que não faço nada condenável. Segundo o meu próprio código penal, claro. Longe de mim. Sou da paz, de verdade. Paz real, palpável, duradoura. Os acontecimentos que ajudo a acontecer evitam muitas mortes futuras e muita dor, nas minhas contas eu gero vida e prosperidade. Pode conferir, se não acreditar em mim. Conjunção da Lua com Saturno? Talvez. Vai saber? A sorte me acompanha nas minhas empreitadas...pode não ser por acaso.

Se precisar de mim, não precisa me chamar. Eu saberei. Talvez até já esteja com você. Namastê.


(de Cris Albu)

Nenhum comentário:

Postar um comentário